quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A maior injustiça do mundo

Ele adentrou o bar naquela noite. Era uma noite fria mas estava aquecido pelo prazer de voltar àquele lugar. Ia ali regularmente, encontrava seus amigos, bebia, comia e se descontraia. Não posso prolongar-me com a história deste primeiro homem, esta é uma história muito rápida. Uma história de um segundo.

Nada de especial naquele dia. Apenas mais um dia. Um dia como qualquer outro. Seria, não fosse o homem que adentrou o bar instantes depois. Este segundo homem jamais fora visto. Usava preto. Sem expressões. Entrou, sentou-se próximo ao balcão. Não encontrou-se com ninguém, sentou só. Não pediu nada. Muito calmo. Calado. Sereno. Observador.

É um fato curioso e injusto. É um fato cruel. O segundo homem era detentor de um conhecimento que não deveria lhe pertencer. Logo ele. E só ele. Só ele sabia que aquela seria a última vez que o primeiro homem entraria em seu bar favorito. Que seria a última vez que aquele pediria sua bebida favorita. A última vez que brindaria com os amigos, as velhas frases prontas e cheias de ambiguidades. Que seria a última vez que abraçaria a mulher que há anos amara em segredo. Seria a última vez que reclamaria do ponto da carne. Só este sabia que aquele não mais veria o sol e que acabara de perder, envolvido com o trânsito, seu último pôr do sol. Só este sabia que o primeiro homem não precisaria mais do cartão de crédito, com o qual pagou a conta. Só este sabia que aquele não precisaria mais do paletó que acabou de esquecer no encosto da cadeira que sentava. Talvez, se aquele soubesse de tudo isto, teria parado por um instante e admirado o sol se por. Teria saboreado cada grama do seu bife mal passado, mesmo que preferisse ao ponto. Teria abraçado pela última vez a mulher que amava e, quem sabe, teria finalmente dito isto a ela. Talvez, seu último brinde fosse o mais sincero de todos e cada gole da sua bebida favorita seria tão marcante como o primeiro e tão saboroso quanto o último. Teria admirado a decoração do seu bar favorito, que já havia sido trocada três vezes, mas ele nunca havia reparado. Talvez, desta vez daria a gorjeta que seu garçom sempre esperou, em silêncio e com um sorriso no rosto.

E pela mesma porta que entrou, saiu o primeiro homem, da mesma maneira seguido pelo segundo. Novamente ninguém o viu. Se foram. A porta se fechou lentamente atrás de ambos.
Um forte, longo e alto ruído de pneus queimando no asfalto foi ouvido de dentro do bar, seguido de um barulho seco e curto. Gritos.

Naquela noite apenas um homem foi encontrado na sarjeta, próximo ao estacionamento.
Sem vida. Era o segundo, que encontrou seu destino antes que o primeiro.


Minu

3 comentários:

  1. Pior q naum saber q tudo será pela última vez, é viver a última vez de outra pessoa, sem saber q será a sua!!!!!!

    ResponderExcluir
  2. Venha cá, eu tenho um continho aki q escrevi na época do governo Vargas. Se vcs gostarem e quiserem postar, tá as órdi!

    ResponderExcluir