Naquela manhã, quando o abri, uma estranheza me tomou subitamente. Não havia uma só palavra nas páginas do livro. Ora, eu havia manuseado este livro não havia mais que algumas horas. Passei algumas páginas - Talvez eu não tenha reparado todas estas páginas em branco - pensei. Mas não havia nenhuma só letra, por dezenas de páginas. Eu teria notado.
Junto com o desconforto da descoberta eu sentia que o livro vibrava em minhas mãos. Sim, um vibrar muito suave, não fosse a estranheza do momento, talvez nem o teria notado. Eu fechei o livro e deslizei meu polegar pelas páginas forçando-as a se mostrarem. Tudo em branco. Mas de repente vi entre duas páginas um borrão preto. Rapidamente procurei novamente essa lacuna. E quando a encontrei o que se seguiu quase me convenceu que estava louco, ou em pleno sonho.
Como formigas em fuga de um formigueiro, as letras que estavam todas juntas num grande borrão preto, dispersaram. Se movimentavam desbaratadas pelas duas páginas abertas. As vezes solitárias e as vezes acompanhadas de outras letras, formavam palavras e desformavam. Naquele frenezí percebi de onde vinha o suave vibrar. Muito rápidas as letras deslizaram por entre as páginas do livro, todas elas como em um enxame de abelhas.
Deslizaram e se organizaram. O borrão desapareceu. Passando algumas páginas percebi que elas haviam se enfileirado uma do lado das outras. Haviam voltado aos seus lugares. O vibrar cessou. Repousava em minhas mãos agora um livro como outro qualquer, não fosse pelo o que eu acabara de ver. Como se nada tivesse acontecido as letras estavam lá, paradinhas em seus lugares, formavam palavras, frases, parágrafos... um livro inteirinho. Mas o que eu acabara de ver não poderia ser esquecido. Não era como se nada tivesse acontecido. Eu havia flagrado aquele ajuntamento e me perguntava se estava louco ou dormindo. Eu havia presenciado a conferência das palavras. Se não uma conferência, ao menos uma reunião. - O que elas deliberavam? - Pensava. - Mas que maluquice, eu devo ter imaginado tudo isso, não faz sentido algum. Talvez tenha dormido pouco e estou alucinando - Pensava eu, tentando devolver a sanidade aos meus pensamentos.
Procurei a página onde havia parado, desde a última vez que li o livro. Não havia lido muito, talvez por alguns minutos. Mas quando a encontrei tive outra surpresa. Após ler alguns parágrafos percebi que aquele não era o mesmo conto que eu lia anteriormente. Era outro. Bem diferente. Eu não me enganaria assim. Então, o pensamento que eu havia abandonado voltou e agora mais feroz. - SIM! Eu as flagrei! Está claro agora. - Eu havia mesmo flagrado o ventre de um livro, eu havia descoberto como nascem os contos. Eu vi um livro dar a luz!
Busquei coerência em todo o conto com a história que este apresentava agora, e lá estava. Perfeita. Era uma bela história, mas diferente da que eu estava lendo. Resolvi fechar o livro e deixá-lo por alguns momentos. Após alguns intermináveis minutos voltei a ele. Mas estava tudo como antes, nada de anormal. Desisti daquele pensamento maluco, estava atrasado a essa altura, para um compromisso. Saí.
Passaram-se os dias e me lembrei daquele estranho episódio, resolvi procurar aquele livro curioso. Não sabia mais se havia sonhado aquilo, imaginado ou se tinha mesmo acontecido. O encontrei, segurei em minhas mãos. Um frio cortou meu estômago, sentia um vibrar. Mas dessa vez eram minhas mãos tremendo de nervosismo. Abri. Lá estavam elas. As letras. Perfeitamente enfileiradas, da esquerda para a direita, linha a linha. Nada anormal. - Eu devo ter sonhado mesmo - Pensei de súbito. Mas verificando novamente a história, SURPRESA! Era outro conto. Aquele sentimento de descoberta me encheu o coração. Eu tinha um livro mágico nas mãos, eu era um privilegiado. - Mas, e os outros contos? - Notei que haviam se perdido. Fiquei triste, eram ótimas histórias. Ótimos contos. Foi como se um ente querido falecesse. Então, percebi o que tinha que fazer. Decidi que nenhum conto jamais se perderia novamente. Decidi que registraria cada um deles, e todos leriam o que aquele livro mágico pariu. Descobri que essa era minha missão. Descobri ONDE VIVEM OS CONTOS. E cá estou.
Minu
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