quinta-feira, 15 de março de 2012

A cidade das crianças

Todos sabem como a vida acontece. Nós nascemos, crescemos, nos reproduzimos, envelhecemos e morremos. É assim, desde sempre. Mas lá em Kidsville é diferente. As coisas não acontecem assim.
Kidsville é uma cidade não muito grande, não muito populosa, mas é curiosa. É curioso pois lá não há idosos. Apenas crianças, jovens e adultos. Lá eles fogem da regra “envelhecemos e morremos.
De bebês vão para crianças, de crianças para adolescentes, de adolescentes para adultos e quando adultos após terem um bebê, voltam a ser crianças. Mamães e papais brincam com os filhos, tendo a mesma idade. E assim é o ciclo da vida de Kidsville. Após a fase adulta vem a infância novamente. Parece cansativo. Mas é tudo tão feliz por lá.
Tudo para crianças. Brinquedos, bonecas, carrinhos, doces, balas, cores, bolinhas de sabão. Todos correndo de um lado para o outro. Felizes. Não há do que reclamar.

Mas esta não é uma história de uma cidade cheia de crianças. É uma história de uma pessoa velha na cidade de crianças.

Seu Rodolfo era conhecido como o do contra. Não teve filhos como todo mundo. Ele sabia que as crianças eram “a fonte da juventude”. Ter filhos rejuvenescia. Sim. Mas ele não queria ficar neste interminável ciclo, como todos. Se fosse para ter um filho, teria de ser com uma pessoa especial e não com qualquer pessoa apenas com o pretesto de ficar jovem para sempre.
Era o único idoso de toda a cidade. O único que não havia tido filhos. Seu corpo estava fraco para aquela cidade. Ele não acompanhava o ritmo de todas aquelas crianças. Todos correndo ao seu redor. Aquela, definitivamente não era uma cidade para pessoas velhas. Era a cidade das crianças. Tudo rápido, correndo, brilhando, cantando.

Seu Rodolfo mal saía de casa, pois simplesmente não conseguia seguir todo aquele ritmo. Adoeceu um dia. Uma possível gripe, acompanhada de muita tosse. Como era sozinho, teve de ir ele mesmo até a farmácia mais próxima. Com seu casaquinho já bem gasto do tempo, um chapéu que ganhara de seu pai, que era bem mais jovem que ele e sua bengala. Era o único que caminhava em câmera lenta. Pelo menos era o que ele achava, até aquele dia. Da calçada ele olhava uma pessoa do outro lado da rua. Que não corria. Eram os únicos que andavam no mesmo ritmo. Pela primeira vez na vida, pensou ele ter se encontrado em outra pessoa. Se via do outro lado da rua também. Do outro lado da rua estava Matilde.

Esperou até que o semáfaro fechasse e atravessou a rua, quase que correndo, como nunca fizera antes. Entraram praticamente juntos no mesmo lugar. A farmácia da rua 12. Se olharam espantados. Viam a alma um do outro pelos olhos ao se olharem. Ficaram desconcertados. Seu Rodolfo abaixou a cabeça. Já não sabia o que sentia naquele momento. Medo, felicidade, insegurança, esperança, amor?
Matilde pegou em seu ombro e disse: _Bom dia! Foram duas pequenas palavras ditas por uma voz tão linda e tão suave e entraram pelos ouvidos de Seu Rodolfo e passaram por todo seu corpo como o sangue passa por todas as veias. Respondeu bem tímido, mas respondeu.
Entraram, fizeram seus pedidos de remédios, e quando seu Rodolfo virava em direção à porta, Matilde disse: _Sabe que somos diferentes e iguais não é?
Seu Rodolfo mais uma vez sentiu as palavras entrarem e passarem por seu corpo. Olhou-a nos olhos e balançou a cabeça, dizendo que sim. Matilde continuou: _Somos diferentes dos outros, mas somos iguais.
E foi ali, bem no meio daquela farmácia. A farmácia da rua 12. Que duas almas se encontraram. Duas almas iguais. Almas gêmeas.
E eles voltaram a ser crianças.

Nina

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A maior injustiça do mundo

Ele adentrou o bar naquela noite. Era uma noite fria mas estava aquecido pelo prazer de voltar àquele lugar. Ia ali regularmente, encontrava seus amigos, bebia, comia e se descontraia. Não posso prolongar-me com a história deste primeiro homem, esta é uma história muito rápida. Uma história de um segundo.

Nada de especial naquele dia. Apenas mais um dia. Um dia como qualquer outro. Seria, não fosse o homem que adentrou o bar instantes depois. Este segundo homem jamais fora visto. Usava preto. Sem expressões. Entrou, sentou-se próximo ao balcão. Não encontrou-se com ninguém, sentou só. Não pediu nada. Muito calmo. Calado. Sereno. Observador.

É um fato curioso e injusto. É um fato cruel. O segundo homem era detentor de um conhecimento que não deveria lhe pertencer. Logo ele. E só ele. Só ele sabia que aquela seria a última vez que o primeiro homem entraria em seu bar favorito. Que seria a última vez que aquele pediria sua bebida favorita. A última vez que brindaria com os amigos, as velhas frases prontas e cheias de ambiguidades. Que seria a última vez que abraçaria a mulher que há anos amara em segredo. Seria a última vez que reclamaria do ponto da carne. Só este sabia que aquele não mais veria o sol e que acabara de perder, envolvido com o trânsito, seu último pôr do sol. Só este sabia que o primeiro homem não precisaria mais do cartão de crédito, com o qual pagou a conta. Só este sabia que aquele não precisaria mais do paletó que acabou de esquecer no encosto da cadeira que sentava. Talvez, se aquele soubesse de tudo isto, teria parado por um instante e admirado o sol se por. Teria saboreado cada grama do seu bife mal passado, mesmo que preferisse ao ponto. Teria abraçado pela última vez a mulher que amava e, quem sabe, teria finalmente dito isto a ela. Talvez, seu último brinde fosse o mais sincero de todos e cada gole da sua bebida favorita seria tão marcante como o primeiro e tão saboroso quanto o último. Teria admirado a decoração do seu bar favorito, que já havia sido trocada três vezes, mas ele nunca havia reparado. Talvez, desta vez daria a gorjeta que seu garçom sempre esperou, em silêncio e com um sorriso no rosto.

E pela mesma porta que entrou, saiu o primeiro homem, da mesma maneira seguido pelo segundo. Novamente ninguém o viu. Se foram. A porta se fechou lentamente atrás de ambos.
Um forte, longo e alto ruído de pneus queimando no asfalto foi ouvido de dentro do bar, seguido de um barulho seco e curto. Gritos.

Naquela noite apenas um homem foi encontrado na sarjeta, próximo ao estacionamento.
Sem vida. Era o segundo, que encontrou seu destino antes que o primeiro.


Minu

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O pintor do céu

As pessoas adoram admirar o céu e suas cores. As nuvens e suas formas.
Acontece é que elas não sabem que por trás da imensidão do céu há um homem. Um senhor. Não tão velho. Com seus sessenta e tantos anos. Sozinho.
É um pintor desde que ele se lembra. Mora numa pequena vila chamada Linyuskyville. Até difícil de pronunciar. Acho que ninguém nunca pronunciou corretamente. Ou se há uma maneira correta de pronunciar (o que não vem ao caso). Este senhor mora sozinho, cresceu sozinho, se criou sozinho. Sua casa é a que fica mais distante de todas as outras casas do vilarejo.
Acho que as pessoas de lá têm medo dele. Nem ousam chegar perto da casinha dele. As crianças já crescem achando que ele é uma pessoa ruim e nem pensam em brincar por lá. Menos Lily. Uma menina sadia e inteligente. Branquinha e com seus cabelos cor de ouro, como quase todos que viviam lá. Resolveu ela sair a "desbravar" e sem medo algum subiu um pouco a montanha, onde se encontrava a casa do senhor. Encontrou a porta meio aberta, bateu. Ninguém veio. Não esperou e entrou. Esperava encontrar uma casa suja e velha, pois era o que todos diziam. Ao contrário disto, viu uma casa linda, bem cuidada, limpinha e cheia de cor. Isto mesmo. Tinha nas paredes pinturas emolduradas de céus. Muitos céus. Apenas céus. Cheios de cores, de nuvens, ou de estrelas, ou sol, ou lua. Ficou olhando todas aquelas imagens com os olhos brilhando e foi entrando cada vez mais na casa. Subiu as escadas e viu um homem de costas, pintando uma tela. Na tela: o céu. Olhava o céu da pintura e olhava o céu pela janela. Percebeu que quando o senhor pintava na tela era como se pintasse no céu também. O pincel com tinta branca passando pela tela fazia nuvens no céu lá fora. Teve um pouco de medo disto, deu um passo para trás e derrubou uns pincéis no chão. O senhor olhou para trás rapidamente, a menina correu assustada, sem parar. Chegou em casa já sem fôlego e ficou sentada na grama e olhando para o céu. Com milhares de perguntas na cabeça.
No dia seguinte foi lá novamente. E novamente viu o senhor pintando o céu, com cores diferentes. E o céu lá fora mudava de acordo com que o senhor pintava. Ela achou aquilo lindo e mágico. O senhor virou para trás e a viu. Desta vez a menina não correu. Perguntou a ele como fazia aquilo e porquê fazia. Ele disse que simplesmente pintava, sempre pintou e sempre pintará.
Lily passou a ir lá todos os dias. O senhor era muito simpático e educado. De mau ele não tinha nada. Apenas a fama. E durante todos estes dias em que Lily ia visitá-lo, foi quando o céu esteve mais lindo. Cada dia mais bonito.
A mãe de Lily achou estranho as saídas repentinas da filha em vários horários do dia e a proibiu de ficar saindo sem que dissesse pra onde iria.
Depois disso o tempo mudou. O dia não tinha mais brilho. O céu não tinha mais todas aquelas cores lindas. Ficava quase o tempo todo de uma só cor: cinza.
O senhor que ficava tão feliz com as visitas da menina, agora estava tão triste que não queria mais pintar. Não entendia porque ela havia parado de visitá-lo. Se perguntava se havia feito algo que ela não gostou.
Passaram-se semanas e nada da menina. E nada do sol. E nada de cores.
O senhor resolveu fazer algo. Levantou de sua cadeira. Deixou seus pincéis. Colocou seu chapéu que há muito estava pendurado, já empoeirado. Saiu de casa. Finalmente. Depois de taaaantos anos. Foi caminhando e caminhando até chegar aonde todos viviam. Todos olhavam para ele amedrontados. Ele saiu perguntando para cada pessoa que encontrava aonde morava a menina chamada Lily. Todos respondiam e tentavam lhe indicar a direção, não por educação, mas por medo mesmo.
Finalmente encontrou a casa da menina, uma casinha pequenina, mas arrumadinha. Pintada de azul. Azul bebê, ou seria azul turquesa? Azul claro? Era azul CÉU. Chamou por ela e a mãe foi ver quem era. Se assustou ao vê-lo. Mas logo viu que ele não passava de um senhor humilde e educado. O convidou para entrar e lá ficaram a tarde inteira a conversar, juntamente com Lily, é claro. Explicaram então onde Lily ia todos os dias e porquê ia.
O senhor voltou para casa como nunca estivera antes: extremamente feliz. Feliz por ter tido coragem de sair de casa. Feliz por conversar com alguém. Feliz por rever a menina. Feliz. Feliz. Feliz.
No dia seguinte o céu estava tããão, mas tããão lindo e colorido. E só quem sabia o porquê da mudança repentina do céu eram Lily e agora sua mãe. Que passaram a visitar o senhor todos os dias.



Nina

Onde vivem os contos

Era um livro grosso. Capa dura, daquelas encadernações que não se têm imagem na capa ou qualquer tipo de ilustração, ou título.

Naquela manhã, quando o abri, uma estranheza me tomou subitamente. Não havia uma só palavra nas páginas do livro. Ora, eu havia manuseado este livro não havia mais que algumas horas. Passei algumas páginas - Talvez eu não tenha reparado todas estas páginas em branco - pensei. Mas não havia nenhuma só letra, por dezenas de páginas. Eu teria notado.

Junto com o desconforto da descoberta eu sentia que o livro vibrava em minhas mãos. Sim, um vibrar muito suave, não fosse a estranheza do momento, talvez nem o teria notado. Eu fechei o livro e deslizei meu polegar pelas páginas forçando-as a se mostrarem. Tudo em branco. Mas de repente vi entre duas páginas um borrão preto. Rapidamente procurei novamente essa lacuna. E quando a encontrei o que se seguiu quase me convenceu que estava louco, ou em pleno sonho.

Como formigas em fuga de um formigueiro, as letras que estavam todas juntas num grande borrão preto, dispersaram. Se movimentavam desbaratadas pelas duas páginas abertas. As vezes solitárias e as vezes acompanhadas de outras letras, formavam palavras e desformavam. Naquele frenezí percebi de onde vinha o suave vibrar. Muito rápidas as letras deslizaram por entre as páginas do livro, todas elas como em um enxame de abelhas.

Deslizaram e se organizaram. O borrão desapareceu. Passando algumas páginas percebi que elas haviam se enfileirado uma do lado das outras. Haviam voltado aos seus lugares. O vibrar cessou. Repousava em minhas mãos agora um livro como outro qualquer, não fosse pelo o que eu acabara de ver. Como se nada tivesse acontecido as letras estavam lá, paradinhas em seus lugares, formavam palavras, frases, parágrafos... um livro inteirinho. Mas o que eu acabara de ver não poderia ser esquecido. Não era como se nada tivesse acontecido. Eu havia flagrado aquele ajuntamento e me perguntava se estava louco ou dormindo. Eu havia presenciado a conferência das palavras. Se não uma conferência, ao menos uma reunião. - O que elas deliberavam? - Pensava. - Mas que maluquice, eu devo ter imaginado tudo isso, não faz sentido algum. Talvez tenha dormido pouco e estou alucinando - Pensava eu, tentando devolver a sanidade aos meus pensamentos.


Procurei a página onde havia parado, desde a última vez que li o livro. Não havia lido muito, talvez por alguns minutos. Mas quando a encontrei tive outra surpresa. Após ler alguns parágrafos percebi que aquele não era o mesmo conto que eu lia anteriormente. Era outro. Bem diferente. Eu não me enganaria assim. Então, o pensamento que eu havia abandonado voltou e agora mais feroz. - SIM! Eu as flagrei! Está claro agora. - Eu havia mesmo flagrado o ventre de um livro, eu havia descoberto como nascem os contos. Eu vi um livro dar a luz!

Busquei coerência em todo o conto com a história que este apresentava agora, e lá estava. Perfeita. Era uma bela história, mas diferente da que eu estava lendo. Resolvi fechar o livro e deixá-lo por alguns momentos. Após alguns intermináveis minutos voltei a ele. Mas estava tudo como antes, nada de anormal. Desisti daquele pensamento maluco, estava atrasado a essa altura, para um compromisso. Saí.

Passaram-se os dias e me lembrei daquele estranho episódio, resolvi procurar aquele livro curioso. Não sabia mais se havia sonhado aquilo, imaginado ou se tinha mesmo acontecido. O encontrei, segurei em minhas mãos. Um frio cortou meu estômago, sentia um vibrar. Mas dessa vez eram minhas mãos tremendo de nervosismo. Abri. Lá estavam elas. As letras. Perfeitamente enfileiradas, da esquerda para a direita, linha a linha. Nada anormal. - Eu devo ter sonhado mesmo - Pensei de súbito. Mas verificando novamente a história, SURPRESA! Era outro conto. Aquele sentimento de descoberta me encheu o coração. Eu tinha um livro mágico nas mãos, eu era um privilegiado. - Mas, e os outros contos? - Notei que haviam se perdido. Fiquei triste, eram ótimas histórias. Ótimos contos. Foi como se um ente querido falecesse. Então, percebi o que tinha que fazer. Decidi que nenhum conto jamais se perderia novamente. Decidi que registraria cada um deles, e todos leriam o que aquele livro mágico pariu. Descobri que essa era minha missão. Descobri ONDE VIVEM OS CONTOS. E cá estou.

Minu