Todos sabem como a vida acontece. Nós nascemos, crescemos, nos reproduzimos, envelhecemos e morremos. É assim, desde sempre. Mas lá em Kidsville é diferente. As coisas não acontecem assim.
Kidsville é uma cidade não muito grande, não muito populosa, mas é curiosa. É curioso pois lá não há idosos. Apenas crianças, jovens e adultos. Lá eles fogem da regra “envelhecemos e morremos.
De bebês vão para crianças, de crianças para adolescentes, de adolescentes para adultos e quando adultos após terem um bebê, voltam a ser crianças. Mamães e papais brincam com os filhos, tendo a mesma idade. E assim é o ciclo da vida de Kidsville. Após a fase adulta vem a infância novamente. Parece cansativo. Mas é tudo tão feliz por lá.
Tudo para crianças. Brinquedos, bonecas, carrinhos, doces, balas, cores, bolinhas de sabão. Todos correndo de um lado para o outro. Felizes. Não há do que reclamar.
Mas esta não é uma história de uma cidade cheia de crianças. É uma história de uma pessoa velha na cidade de crianças.
Seu Rodolfo era conhecido como o do contra. Não teve filhos como todo mundo. Ele sabia que as crianças eram “a fonte da juventude”. Ter filhos rejuvenescia. Sim. Mas ele não queria ficar neste interminável ciclo, como todos. Se fosse para ter um filho, teria de ser com uma pessoa especial e não com qualquer pessoa apenas com o pretesto de ficar jovem para sempre.
Era o único idoso de toda a cidade. O único que não havia tido filhos. Seu corpo estava fraco para aquela cidade. Ele não acompanhava o ritmo de todas aquelas crianças. Todos correndo ao seu redor. Aquela, definitivamente não era uma cidade para pessoas velhas. Era a cidade das crianças. Tudo rápido, correndo, brilhando, cantando.
Seu Rodolfo mal saía de casa, pois simplesmente não conseguia seguir todo aquele ritmo. Adoeceu um dia. Uma possível gripe, acompanhada de muita tosse. Como era sozinho, teve de ir ele mesmo até a farmácia mais próxima. Com seu casaquinho já bem gasto do tempo, um chapéu que ganhara de seu pai, que era bem mais jovem que ele e sua bengala. Era o único que caminhava em câmera lenta. Pelo menos era o que ele achava, até aquele dia. Da calçada ele olhava uma pessoa do outro lado da rua. Que não corria. Eram os únicos que andavam no mesmo ritmo. Pela primeira vez na vida, pensou ele ter se encontrado em outra pessoa. Se via do outro lado da rua também. Do outro lado da rua estava Matilde.
Esperou até que o semáfaro fechasse e atravessou a rua, quase que correndo, como nunca fizera antes. Entraram praticamente juntos no mesmo lugar. A farmácia da rua 12. Se olharam espantados. Viam a alma um do outro pelos olhos ao se olharem. Ficaram desconcertados. Seu Rodolfo abaixou a cabeça. Já não sabia o que sentia naquele momento. Medo, felicidade, insegurança, esperança, amor?
Matilde pegou em seu ombro e disse: _Bom dia! Foram duas pequenas palavras ditas por uma voz tão linda e tão suave e entraram pelos ouvidos de Seu Rodolfo e passaram por todo seu corpo como o sangue passa por todas as veias. Respondeu bem tímido, mas respondeu.
Entraram, fizeram seus pedidos de remédios, e quando seu Rodolfo virava em direção à porta, Matilde disse: _Sabe que somos diferentes e iguais não é?
Seu Rodolfo mais uma vez sentiu as palavras entrarem e passarem por seu corpo. Olhou-a nos olhos e balançou a cabeça, dizendo que sim. Matilde continuou: _Somos diferentes dos outros, mas somos iguais.
E foi ali, bem no meio daquela farmácia. A farmácia da rua 12. Que duas almas se encontraram. Duas almas iguais. Almas gêmeas.
E eles voltaram a ser crianças.
Nina
